Fragilidades e desafios das políticas de inclusão de jovens no mundo do trabalho Fabio Ribas Jr. e Saulo Cunha | 9.6.2008Estudo do IPEA, divulgado pela imprensa no mês passado, mostra que os jovens de 15 a 24 anos já são quase a metade dos desempregados no Brasil e que a desocupação nessa faixa etária é 3,5 vezes maior do que entre adultos com mais de 24 anos.
Os autores do estudo apontam os seguintes fatores responsáveis pelo fenômeno: custo menor na demissão (em razão do valor das indenizações), alta rotatividade (típica dessa fase da vida), busca de complementação de renda da família (com conseqüente abandono do estudo). Pode-se acrescentar que, para muitos analistas, a rigidez das leis prejudica o acesso ao mercado para trabalhadores jovens, pois os empregadores têm que arcar com custos altos para contratar pessoas com menos experiência que os demais. Como resultado, os jovens acabam assumindo ocupações precárias e de baixa remuneração, em geral de curta duração, e descontinuando sua vida escolar.
Os fatores que determinam a alta taxa de desemprego dos jovens no Brasil já haviam sido sintetizados em estudo anterior do IPEA: (*)
1) Dificuldade do jovem em obter a primeira ocupação no mercado formal, em face da elevação das exigências de escolaridade e experiência por parte das empresas para novas contratações.
2) Tendência de alta rotatividade dos jovens no mercado de trabalho, que obtêm trabalho rapidamente, mas também se desligam mais rapidamente, o que encurta a duração do período de ocupação nessa faixa etária.
3) Baixo grau de escolarização e maior vulnerabilidade de um subgrupo significativo de jovens. Um grande número de jovens não está nem no mercado de trabalho nem na escola. No passado este subgrupo era composto, sobretudo, por mulheres jovens que iam para o trabalho doméstico. Atualmente diminui a proporção de mulheres nessa situação e aumenta o percentual de homens entre 15 e 24 anos fora da escola e sem ocupação.
Caminhos de ação
Como promover a inserção laboral sustentável de jovens, especialmente entre as camadas mais pobres da população? O programa Futuro em Nossas Mãos (desenvolvido pelo Grupo Votorantim, com a consultoria da Prattein) dá pistas para responder essa questão e ilustra a importância de fatores mencionados nos estudos do IPEA.
Esse programa atende jovens vulneráveis de 18 a 24 anos, oferecendo qualificação para o trabalho e apoio à inserção laboral em áreas relacionadas às cadeias produtivas em que empresas do Grupo Votorantim atuam. O programa oferece cursos (ministrados pelo SENAI) que buscam desenvolver nos jovens capacidades para atuar nos primeiros estágios ocupacionais das cadeias produtivas e capacidades básicas (tais como comunicação, trabalho em equipe, empreendedorismo, participação cidadã etc.) que ampliem suas condições de empregabilidade e de manutenção no mercado de trabalho. Porém, o programa se diferencia de outros projetos semelhantes por incorporar em sua estratégia: a) um processo cuidadoso de seleção de jovens, que leva em conta seu grau de vulnerabilidade, inclinações e interesses; b) um processo preliminar de informação e orientação, que oferece aos jovens uma antevisão dos processos de trabalho e oportunidades relacionadas aos cursos, aumentando assim as chances de decisão consciente dos jovens quanto à sua decisão de fazer o curso; c) a formação de uma rede de apoio à inserção laboral dos jovens, que cuida da divulgação do programa junto a empresas e empresários pertencentes às cadeias produtivas ligadas às áreas de qualificação dos cursos, e que acompanha o percurso profissional dos jovens por um período de pelo menos seis meses após a conclusão dos cursos.
Em São Paulo (SP), a unidade do Grupo Votorantim que desenvolve o programa Futuro em Nossas Mãos é a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA). Os jovens atendidos residem na zona leste da cidade. Os cursos oferecidos versam sobre montagem e instalação de esquadrias de alumínio e são ministrados pela escola SENAI do Tatuapé. Participam da rede de apoio à inserção laboral dos jovens, além da CBA, a Associação dos Fabricantes de Esquadrias de Alumínio (AFEAL), o Centro de Apoio ao Trabalho da Secretaria de Trabalho e Emprego do Município de São Paulo (CAT), além de ONGs que, eventualmente, apóiam a seleção e o encaminhamento profissional dos jovens.
No acompanhamento do programa Futuro em Nossas Mãos a Prattein tem constatado as dificuldades mencionadas nos estudos do IPEA. Porém, as estratégias diferenciadas do programa, citadas anteriormente, têm possibilitado selecionar jovens vulneráveis, que apresentam maior afinidade com a área de capacitação oferecida e que, a despeito de suas dificuldades, têm conseguido permanecer no curso até o seu final. Em média, apenas 6% deles evadem, sendo a principal causa de evasão a necessidade de agarrar oportunidades de trabalho (inclusive informal) que trazem ajuda imediata para a garantia da subsistência.
Dos jovens formados desde o início do programa promovido pela CBA, 50% foram admitidos por empresas da área de serralheria, graças à ação da rede de apoio já citada. A maioria desses jovens tem permanecido nas empresas que os contrataram. Entre os que deixaram as empresas em que obtiveram seu primeiro emprego pós-curso, a maioria migrou para empresas da mesma área, atraídos por melhores condições de trabalho.
O programa Futuro em Nossas Mãos vem alcançando sucesso em lidar com alguns fatores apontados nos estudos do IPEA. Sua estratégia é marcada pelo esforço constante em promover o encontro entre as necessidades dos jovens de se inserir no mercado de trabalho e as necessidades das empresas de contratar profissionais qualificados. Acima de tudo, o sucesso depende da ação compartilhada e sincronizada da rede de apoio: a oportunidade de qualificação chega até os jovens por meio do CAT e das ONGs, que participam também da seleção daqueles que ingressarão nos cursos; a informação sobre a oportunidade de contar com jovens preparados pelo programa chega às empresas por meio da AFEAL; a capacitação dos jovens é feita pelo SENAI; a Prattein promove a articulação de todos os parceiros, cuja ação em rede viabiliza as ações e os resultados; a CBA patrocina e impulsiona o processo exercendo sua capacidade de liderança na cadeia produtiva em que atua.
De fato, oferecer oportunidades de capacitação profissional aos jovens mais vulneráveis não é suficiente. Programas sociais nessa área precisam estender seu olhar ao conjunto de fatores que determinam a qualidade da inserção produtiva dos jovens no mercado de trabalho e que influenciam a probabilidade de manutenção de bons empregos. Como a primeira etapa da vida laboral dos jovens tende a ser marcada por experiências efêmeras, passa ser estratégico prepará-los para a travessia dessa etapa, ajudando-os a fazer escolhas adequadas e a desenhar projetos de vida que considerem tanto suas vocações pessoais quanto a realidade e as tendências do mundo do trabalho. Ao promover a primeira inclusão de jovens no mundo trabalho, é importante garantir que a experiência tenha valor educativo e não se justifique apenas pela obtenção de ocupação remunerada. Além disso, é importante que a vida escolar do jovem não sofra descontinuidades, posto que o grau de escolaridade e o domínio de conhecimentos serão cada vez mais decisivos para o progresso qualificado no mundo do trabalho. Finalmente, cabe destacar que a avaliação dos resultados de programas destinados a favorecer a inserção produtiva dos jovens deve levar em conta o caráter efêmero da primeira etapa de inserção laboral dos jovens, de forma a que se possa interpretar com maior propriedade informações obtidas junto aos egressos de cursos de preparação para o trabalho.
Em estudo anterior (*) o IPEA formulou um elenco de recomendações que converge com a experiência do programa Futuro em Nossas Mãos e pode ser tomado como orientação para o planejamento de programas de favorecimento da inserção dos jovens no mundo do trabalho:
a) Aprimorar o marketing institucional de programas de profissionalização de jovens perante a classe empresarial.
b) Capacitar as entidades que operam programas de profissionalização de jovens a desenvolverem habilidades próprias de inserção laboral. Dotá-las de conhecimentos específicos sobre legislação sindical, trabalhista e previdenciária. Subsidiá-las com estudos e pesquisas que abordem especificidades dos mercados de trabalho locais.
c) Promover a integração entre programas de profissionalização de jovens e outras linhas de ação e políticas públicas das áreas de educação, trabalho e emprego, tais como Empreendedorismo Juvenil, Intermediação de Mão-de-Obra, Concessão de Microcrédito Orientado e Economia Solidária.
d) Prever recursos não apenas para as atividades e capacitação de jovens, mas também para as atividades de intermediação junto ao mercado de trabalho.
e) Realizar acompanhamentos sistemáticos de avaliação entre os jovens egressos de programas de profissionalização.
Nota
(*) Cardoso Jr. e outros. Longa caminhada, fôlego curto: o desafio da inserção laboral juvenil por meio dos consórcios sociais da juventude. Brasília, IPEA, 2006.
Mais informações sobre o programa Futuro em Nossas Mãos
|